Curvem-se ao campeão

FONTE: Waves

Por Alexandre de Toledo Piza em 11/12/2008 08:12

Torcedor fanático comemora título mundial de Uri Valadão. Foto: Tony D´Andrea.

Não, não estamos falando de Slater. Estamos falando de um herói verde e amarelo. Um garoto tranqüilo, sorridente, humilde, batalhador e que sempre carrega a autoconfiança na medida certa para um campeão de verdade.
Até setembro, quando fechou patrocínio com a Cobra D’Água, Uri Valadão tinha mais uma daquelas histórias bem brasileiras de falta de apoio financeiro forte.

Aquele perrengue de só contar com a força da família e da verba vinda da premiação de campeonatos. Somente apoio de equipamentos.

Foi assim, degrau a degrau, que ele chegou lá. Acreditou no sonho e foi subindo tranqüilo, sem perder nunca a esperança e o que mais me chamou a atenção: o bom humor.

Para o colunista, Valadão e Adriano de Souza provam que o sorriso no rosto reflete na água. Foto: Michael Tweddle / Apas.

Quando uma vez mencionei aqui que, ultimamente, Adriano de Souza surfava com o tal sorriso no rosto, muita gente não entendia o que isso significava na prática. Surfar relaxado, mas ao mesmo tempo concentrado. Tirar do cotidiano aquela marra característica da surfistada que chega ao estrelato.
É o que se via também na gloriosa época de Teco e Fabinho, onde cada trip, cada passo a frente, era encarado com uma diversão que deveria ter contagiado toda uma geração, mas que hoje em dia, vejo que é exatamente o contrário.
Cada vez mais o estilo “bad boy” tem tomado conta dos palanques, a cara fechada com aquele ar de concentradão não tem adiantado, pra mim esse alto índice de cara feia tá mais parecendo fome do que qualquer outra coisa. Basta olhar nossas posições nos dois principais circuitos da categoria surf.

Parece que incomoda ser feliz, incomoda ser simpático, incomoda ser autêntico sem copiar a frieza gringa, e o mundo sem essa poesia do surf alegre tem nos custado preciosas posições nos rankings.
Quando Yadin Nicol saiu da água numas de suas baterias em Sunset este ano, ao ser entrevistado, ele não conseguia nem falar, tamanha sua felicidade não em ter avançado no campeonato, mas sim em ter surfado aquelas ondas perfeitas de 4 a 5 metros com somente mais três caras na água. É mais um bom exemplo de como somente preocupar-se em ser você mesmo é o mais importante.
Quem assistiu à entrevista de Picuruta Salazar na TV Waves na semana passada, também sacou o que é o espírito de união que tanto estamos sentindo falta nos tempos atuais da nossa galera.
Adriano de Souza e Yadin Nicol eram considerados ultramarrentos não faz muito tempo e hoje são exemplos de que tudo na vida deve ser feito com a sabedoria e a alegria de viver. Nós, analistas, não podemos colocar a mão no fogo por ninguém, mas hoje, esses dois são formas de ilustrar na prática como funciona o mais simples e o que está parecendo mais difícil, incrível!

Quando fui convidado a comparecer ao secret spot de Uri “Nego Boy” Valadão e sua gangue no litoral baiano (onde tem uma casa simples de frente a um pico deserto), não imaginava o que presenciaria.

Um astral incrível da rapaziada do bodyboard local que, sem a menor discriminação, acolhia eu e mais um outro surfista de pranchinha.

Um mar um pouco mexido de cerca de 1,5 a 2 metros quebrando perto da areia e a galera insana se atirando do terceiro andar, um tentando puxar o limite do outro mais acima.
Destaque para Renê Xavier, olho nesse garoto porque ele também tem todos os ingredientes de que vai voar alto, assim como seu amigo, o baiano voador Uri. É uma esquadrilha de ataque aéreo e tanto, altíssimo nível mesmo.

Campeão mundial é cercado pela imprensa no aeroporto de Salvador (BA). Foto: Khael Valadão.

Depois de um animado churrasco no almoço em que o maestro era o pai de Uri, o fim de tarde foi em outro secret spot com fundo de coral. Uma correnteza pesada e alguns tubos que só os bodyboarders mais cascas-grossa conseguiam pegar. Ou seja, eu e meu amigo só assistimos ao show daquela galera que ia cada vez mais para a parte perigosa da bancada.
Era uma sessão de treinos em que todos ali comentavam as performances um do outro, tudo com bom humor e enorme respeito para com a figura principal, que era Uri.

Foi aí que me toquei que estava perto de um campeão de verdade. Independente se ele levantasse o caneco ao final da temporada, eu sabia que o que mais importava para o garoto era aquela atmosfera e ser, porque não, um embaixador de um esporte tão pouco apoiado em nossas terras. Uma referência de união e respeito aos atletas de sua categoria, fossem eles conterrâneos ou não.
Mas, competição, meu caro, não tem essa de amiguinho, churrasquinho ou brinde de suco e refrigerante. Ali, quem quer mesmo ir adiante tem que estar focado e muito!

Quando o papo era bateria na água, via-se muita seriedade e concentração, um ou outro episódio engraçado tomava conta do papo por poucos minutos.

Mas, a análise fria aos principais oponentes era feita de maneira lúcida e cautelosa, digna de quem sabe o seu real objetivo.
E foi assim que Uri seguiu seu caminho em busca do seu primeiro título mundial. Chegou de mansinho e agora é o bicho papão dessa modalidade que já coroa nossos talentos desde que os reis do surf curvaram-se ao seu mais nobre irmão, o bodyboard.
Parabéns Uri, parabéns aos seus amigos, familiares e aos apoiadores que, mesmo com pouco, acreditaram sempre no seu talento e carisma, o resultado está aí: campeão mundial indiscutível!
Já posso imaginar o próximo churrasco como vai ser. Nego Boy foi promovido a rei e tenho certeza que ele vai dividir com todos que fazem parte de sua nobre história a alegria do seu sorriso.

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